Nem tudo o que reluz é vermelho

Palpáveis ou não, as verdades recriadas representam um desafio para a sociedade moderna
Por Adriana Brito    Fotos Divulgação

Em agosto de 1900, o escritor norte-americano L. Frank Baum sintetizava assim seu novo livro: “O folclore, as lendas, os mitos e os contos de fadas têm acompanhado as crianças através dos tempos, pois todo jovem saudável sente um amor instintivo por histórias fantásticas, maravilhosas e manifestamente irreais”. Era o argumento inicial para levar a seus compatriotas uma das obras mais importantes da literatura do século 20, The Wonderful Wizard of Oz, conhecida popularmente como O Mágico de Oz.
Na ocasião ele defendeu a ideia de que os leitores mais novos vinham se distanciando dos contos tradicionais – para eles, parecidos com as aulas cansativas de história – e dos incidentes assustadores imaginados por outros autores para indicar a moral de cada narrativa, tal qual acontecia com as peças dos irmãos Grimm. Chegava a hora, assim, da diversão, da ação, da surpresa em cada página. Seguindo as linhas do inglês Lewis Carroll, de Alice no País das Maravilhas, mas fugindo da dinâmica nonsense por trás da toca do coelho, Frank acertou em cheio – com nada menos que 10 mil exemplares vendidos nas duas primeiras semanas do lançamento, e outras 80 mil no semestre seguinte.
Desde então, inúmeras versões das peripécias da menina Dorothy Ventania e de Totó, seu cãozinho preto de pelos longos e sedosos, pipocaram no universo do entretenimento. A primeira delas foi trazida em 1902 pelo próprio Baum, que organizou a montagem de um musical para os palcos da Broadway junto com os compositores Paul Tietjens e Julian Mitchell. Já em 1939, duas décadas após a morte de seu criador, a roupagem mais famosa de todos os tempos ganhou as três dimensões definitivas. Nesse ano o estúdio MGM levou às telonas O Mágico de Oz, dirigido por Victor Fleming, que teve de sair um pouco antes do fim das gravações para tocar ...E o Vento Levou, e representado pela atriz Judy Garland, como a protagonista, e pelo prestigiado Frank Morgan no papel do Mágico.
Confirmando a força de Oz, o filme produzido por US$ 2.8 milhões tornou-se blockbuster imediato, e posteriormente um clássico, tendo como destaque a voz de Judy na canção Over the Rainbow. Nessa calçada da fama de tijolos amarelos, claro, não poderiam faltar o longa-metragem The Wiz (1978), de Sidney Lumet, cujo cast incluiu os cantores Michael Jackson e Diana Ross, e um pouco a sul do Equador, a paródia Os Trapalhões e O Mágico de Orós (1984), de Victor Lustosa e Dedé Santana, com Xuxa, Didi, Zacarias e Mussum no elenco. Cacildis!

Ruborize-se

Ainda pela geografia local, a chamada dupla de ouro dos musicais brasileiros, Charles Möeller e Claudio Botelho, dirigiram o espetáculo homônimo baseado na única adaptação autorizada para o teatro, feita pela Royal Shakespeare Company. Nos palcos, o enterteiner Miéle encarnou o Mágico, Lucio Mauro Filho vestiu as jubas do Leão Covarde e Heloísa Perissé deu vida à Bruxa Má do Oeste. Sucesso de público, com 80 mil espectadores na temporada carioca, a superprodução teve ainda figurinos desenhados por Fause Haten, que topou o desafio de reproduzir os célebres sapatos vermelhos de Dorothy com cristais Swarovski – na história, os objetos de desejo da Bruxa Má.
Aliás, desde que surgiram tinindo nos pés de Judy Garland, a atenção sobre os quatro pares cravejados de rubis tornou-se constante. Dizem que um deles estaria no Instituto Smithsonian, de Washington; o segundo – já furtado – pertenceria ao museu com o nome da atriz; o terceiro faria parte de uma coleção particular e o último teria ido a leilão em dezembro de 2012. Como citou a colunista Lilian Pacce, no aniversário de 70 anos do longa-metragem, a Warner Bros. e a Swarovski convidaram 19 estilistas para reeditar o ícone. Rapidamente, Christian Louboutin, Jimmy Choo, Manolo Blahnik e demais nomes paparicados do setor estalaram os calcanhares em direção ao projeto que teve renda voltada para o The Elizabeth Glaser Pediatric AIDS Foundation.
Por fim, uma nota: contam alguns acadêmicos que L. Frank Baum teria utilizado sua imaginação para fazer uma crítica ao Partido Populista, com menções subliminares e outras bem diretas também às elites industriais, aos empresários inescrupulosos, ao povo explorado e aos políticos sem força. Olhando por aí, claro que fica a vontade de fazer o mesmo e comparar o livro com a realidade brasileira de Dorothys trajadas de tailleurs vermelhos, ministros feitos de cabeça de palha, parlamentares de ideologias enlatadas e, quiçá, leões pusilânimes aqui a acolá. E quando ouvirmos novamente o feiticeiro dizer que nunca antes na história desse País se viu tamanha mudança, vale uma emenda de rodapé: os sapatos nunca foram vermelhos. Eram de prata!

- Ela estava tão velha – explicou a Bruxa do Norte – que secou depressa com o calor do sol. E desapareceu. Mas os sapatos de prata são seus, e você pode usar.

O Mágico de Oz, capítulo 2, O Encontro com os Munchkins