Red Power

Que as beatas não nos ouçam, mas beijo bom é aquele apaixonado – que carimba a pessoa beijada. O batom vermelho é o start da conquista certa; um truque que põe a vida em chamas!
Por Daniel Froes   Fotos Divulgação

Datam de aproximadamente 5 mil anos a.C. os primeiros registros de mulheres que usavam algo parecido com o batom para realçar os lábios e apimentar o cotidiano. Grande parte delas eram egípcias. No início, as esposas dos faraós utilizavam pinceladas da “púrpura de Tyr”, tinta produzida na cidade fenícia de Tiro, raríssima, e que dava um aspecto mais saudável ao rosto. O cosmético para os lábios também possui raiz faraônica. Os pioneiros pigmentos rubros – de óxido de ferro – foram encontrados no make-up do busto da famosa rainha Nefertiti, exposto no Museu de Berlim.
A partir de meados do século 6, na Espanha, o singelo batom ganhou má reputação e passou a ser tratado como instrumento de poder, manipulação e sedução. Um preconceito aristocrático disfarçado, pois apenas as mulheres das classes sociais mais baixas podiam desfrutar da pintura. Muito tempo depois, em 1770, o parlamento inglês proibiu as britânicas de colorirem as bocas, alegando que assim elas poderiam atrair os homens. Mas se engana quem acha que o artifício sempre foi um salvador do time feminino. O primeiro presidente constitucional dos Estados Unidos, George Washington, por exemplo, amava aveludar os beiços.
Somente em 1921, o adorno atingiu o seu formato atual, de bala e estojo, quando passou a ser comercializado nas lojas de Paris. Em 1930, após a sua inserção no mercado ianque, o gloss caiu de vez no gosto das mulheres. Vinte anos depois, a sensualidade do item foi imortalizada pelas divas do cinema, de Marilyn Monroe a Audrey Hepburn e Elizabeth Taylor. Liz, dizem por aí, amava tanto incrementar a boca que exigia exclusividade nos tons escolhidos por ela para os filmes em que atuava. Outra responsável pela fama do bastão de cores desejáveis foi a rainha Elizabeth II. A nobre teria até encomendado uma tonalidade exclusiva para arrasar durante sua cerimônia de coroação, em 1953. Foi o adeus real à fama de vulgar do contorno vermelho.
Já em 1960, o mulherio se rendeu aos tons mais claros que chegavam ao mercado. Nas décadas seguintes, porém, a cultura da disco music trouxe de volta as gradações fortes, até que nos idos oitentinha, o beauty ficou mais intelectual com paletas abertas do cereja e do carmim. Nessa época a publicidade trouxe o perfume Paloma Picasso, que abusou do sex appeal fatal, destacando a modelo de lábios absolutamente glamourosos para deixar qualquer homem de queixo caído.
O clássico do nécessaire jamais sairá de moda, com uma história de mais de 4 mil anos para provar que veio pra se perpetuar. Um poder ao alcance de todos, em diferentes formatos e tonalidades – basta escolher. Por fim, uma constatação quase óbvia: é parte da natureza humana esquentar, literalmente, o corpo. Talvez aí esteja a razão para tanto alvoroço: sim, o batom, sobretudo o vermelho-fogo, é a chave dos beijos calientes, suavizados e até molhados...