Desvio para o Vermelho

A obra de Cildo Meireles, salpicada de rouge e de simbolismos paradoxais, merece atenção especial
Por Ana Pinho   Fotos Divulgação

“Meu nome é Cildo Meireles. Sou um artista, supostamente.” É assim que Cildo se apresenta em um vídeo sobre ele, feito pelo prestigioso Tate Modern, onde foi o primeiro brasileiro a ter uma retrospectiva em vida, em 2008. Dois anos antes, o carioca esteve no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, para instalar, em caráter permanente, uma de suas obras mais famosas: Desvio para o Vermelho.
Desvio é dividida em três ambientes. No primeiro, “Impregnação”, a onipresença do vermelho faz com o espectador entre, pela pura força cromática, no jogo do artista. Algo entre uma sala de estar e uma sensação de incômodo, o espaço é tomado por uma coleção de móveis e decorações monocromáticas. Até o passarinho empalhado é vermelho, dentro de sua gaiola (vermelha). É possível arriscar que os quadros na parede sejam menções a Mark Rothko, a Yves Klein, mestres do unicolor. O Azul Klein é de repente cor de sangue.
Após essa saturação sensorial, tem-se “Entorno” e “Desvio”. No primeiro, uma enorme mancha vermelha verte de uma garrafa em direção à escuridão. O líquido é fisicamente desproporcional à capacidade de contenção da garrafa. A etapa seguinte responde à angústia. Uma torneira, de onde sai o fluxo rubro. Pronto! Dali jorra o líquido que se enfunila em direção à garrafa. Mas a pia está torta. Por ali não escorre nada. Uma nova problemática: talvez na garrafa origine-se o líquido que está na pia?
“Essas três ideias, a princípio autônomas, colocavam uma situação que me interessava que era um encadeamento de falsas lógicas: ou seja, uma coisa parecia explicar a anterior, mas introduzia um outro elemento que, na verdade, não explicava nada e era a coisa principal. Esse elemento parecia ser explicado na fase seguinte, mas não era explicado. O objetivo era criar uma circularidade onde uma coisa fosse jogando para outra, uma fase jogasse para outra, mas não explicasse nada”, esclarece o artista, em entrevista de 2002 à Coleção Princípios.
A instalação tem vida antiga. Foi concebida no início da ditadura militar, em 1967, e montada em versões um tanto diferentes a partir de 1984, já nos tempos da redemocratização. O contexto histórico não é a explicação integral de sua existência, mas a questão política, forte nas obras de Cildo, é latente. Afinal, não é o vermelho a cor do sangue, da violência? Não é também o símbolo da luta socialista?
“Para mim, o Desvio para o Vermelho é muito mais um trabalho sobre a questão cromática do que a política. Eu poderia ter escolhido outras cores, mas escolhi o vermelho porque, além de ser uma cor carregada de simbolismo, cria uma ambiguidade que interessava a esse trabalho”, explicou. Ele mesmo, no entanto, é favorável às leituras avessas de espectadores. Alguém ter visto algo que ele não viu é mais que uma interação. É um prêmio. Para ele, que evitou criar o que chama de “arte autoritária”, e para o visitante, que evitou um “comportamento infantil” de esperar ordens para obedecer. O nome “desvio” talvez se deva ao principal impacto dos ambientes: nada ali é implausível, mas algo está errado. Se ajeitássemos a pia, descoloríssemos a planta, levantássemos a garrafa... Um descaminho nos tira e nos devolve a normalidade. Ao impregnar a matéria com a cor, Cildo transforma a cor em matéria. Uma improvável matéria de reflexão.

http://www.inhotim.org.br/